fulminado [9]

Entre o Menor e o Minoritário - bordas



Depois de tantos anos lendo, relendo, traduzindo e pensando Artaud eu diria, diferente do que achava no final dos anos noventa, que hoje torna-se seminal REpensar as relações entre literatura e loucura. Na mesma esteira diria, depois de anos de pesquisa sobre a fome e a literatura, que está mais do que na hora de reler os modos como a cultura brasileira vem relacionando-se com a fome, não para entender a vida dos pobres, mas a mentalidade dos que possuem. Não para glamourizar a experiência da loucura, como se fosse um pré-requisito da arte, mas para entender as forças da dita normalidade de hoje.
Mas não credito isso a nenhum retorno dos 60/70. Venho dizendo e me esforçando justo para pensar naquilo que se estrangulou ali. Restos ou becos que exigem outra aproximação. O que não aconteceu nos 60/70. E não o que aconteceu. Necessidade radical de mudar os paradigmas que esses anos deixaram como matriz possível para o pensamento e a arte. Paradigma que vem apenas selando um status-quo e, logo, impedindo diferentes redistribuições de territórios. Sim políticos, sempre políticos.
Falarei disso noutro momento. Agora quero voltar ao diagnóstico desse agora: incremento das posições dicotomicas e mesmo quando no seio desses pensamentos inspirados pelo ultrapassamento delas...
Essas dicotomias enrijecidas que ganham espaço a cada dia resultam num estonteante degladiar entre extremos. Num incremento da agressividade como única afecção para marcar diferenças... Também voltarei a esse incremento da agressão e do ódio como ferramenta da diferenciação. Noutro momento. Mas é daí onde noto que respostas como suspensão ou convite à aporia, ou apologia do híbrido, mistura, ou qualquer outra categoria que tente escamotear ou driblar as diferenças tornam-se inócuos, quando não negligentes. Dizer, por exemplo, que não interessa se isso é ou não literatura, ou poesia, nesse momento, corrobora ao status-quo que hoje se reinveste de declarações de exclusão, de demarcação e entragulamentos. No entanto, não há tampouco como apagar as estratégias que permitiram um trânsito mais eficaz entre artes, classes, gêneros etc. E voltar a qualquer busca por essências puras... Veja como os extremos em algum momento vão tender ao mesmo ponto... Isso é delicado e precisa ser notado em todas as lutas.
Este também um outro diagnóstico: como aportar às minhas lutas minoritarias o vento da minoração. E VICE-VERSA. Como rever o conceito de menor e os seus constelares à luz das novas reivindicações minoritárias.
Venho falando aqui e ali que demos pouca atenção à linha que demarca as separações. Entre limpo e sujo, louco e normal, razão e desrazão etc. O que vive NA linha que separa o limpo do sujo? A rua? O íntimo? O pessoal? O desejo?
... não por acaso caimos de novo e tão fácil num ou noutro canto.
De fato, os autores que atravessaram essas linhas, e que sobreviveram depois disso, deixaram todos eles testemunhos, ou insurgências de algo que vive ali numa zona indistinta. Entre. Para o quê não conseguimos dar este ou aquele nome ainda nesse momento.
A última obra de Artaud é exemplar nesse caso, no que tange à experiência da loucura, do trauma, mas também da lucidez, da retomada da palavra, a remontagem de uma poética, etc.
Eu diria que, hoje, as posições extremadas testemunham também isso: um estreitamento da linha. Precisamos, a meu ver, dar nova espessura às linhas, às bordas. Apalpá-las. Torná-las vivivel. Mais espessas. Ainda voltarei de forma mais específica a necessidade atual de dar espessura às bordas. Agora trata-se de investir justo em diferentes conexões ativadoras dos desejos politicos que escape ao cá ou lá. Veja, não estou falando de mistura. De centrismo liberal. Estou falando de vidas em diferença nesse estreito. Nesse estreito tocam-se e por isso pululam. A hora é de localizar, investir, inventar essas zonas/estreitos/ linhas/bordas que convenham a cada luta. E além : linhas que separam e por isso também unem diferentes lutas. Para adensá-las. E poder viver também aí. Por um tempo maior. Nessa borda.
Qual a linha que demarca ou separa a luta da mulher? É a linha que a separa do homem? Da casa? Da maternidade? Do trabalho? Quais outras lutas encontro no corte dessas linhas? Maternidade/ casa/ trabalho/ divórcio / orfandade/ desamparo... Em cada uma delas entender onde está a separação/junção. Ouvir o recado das linhas...para começar a criar a espessura das bordas.
Isso segue!

Comentários

  1. Muto bom! Esta leitura tem sido essencial para minhas reflexões sobre cidade, terra é território. Valeu!

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