fulminato [4]

sobre sobreviver ou como fazer um manual do pensamento colonial


primeiro é preciso partir
de todos. os lugares
do chão. da resma. desse concreto definido em abstrato 
sendo o mais difícil.
demore-se mais tempo no exílio. dele
esqueça o nome
o próprio
da tua língua.
pare. de escrever – o mudo do mundo. um momento longo. 
mas não conte
o tempo.
não herde nem deixe
que algo de você seja. herdado. 
parta novamente. quando for chamado à permanência. oscile. tudo. delire.
não negue. mas invente a negação.
cheia de um sim tão imenso. que tudo nele caiba. o seu contrário.
não dialetize. aterrorize qualquer par. toda tríade.
insiste. 
não declare. prefira uma espécie singular – simples.
lembre. o suficiente. a chibata. o lanho na carne. o dente caído. o sangue. 
do corpo.
esqueça. tudo. depois.
volte apenas à praça. aonde foi deitado. e a corrente sobre os pés. 
descalço. parta. sem papel. nenhum. o sexo como arma de combate. 
sim. a violência. sempre que um corpo e outro se tocarem. sinta.
devolva tudo isso. em voltagem. zero.
igual à tudo. sem equação.
a mesma conta. a repetição. a frase. cuspa
na comida a tua fome.
no ódio a alegria. mas não o amor.
nele cuspa fogo. faça queimar. e lamba as chamas.
volte ao rés. troque a resma. esqueça de novo. a língua liminar que cortará cada palavra. encoste nela
a cela dos teus pais. visite. mas não more. não morra.
e dos anos depois de partir
ou do agora mesmo. sobreviva
[à violência que carrega em meu peito 
resta como esta aresta. aberta.
este talvegue. navegue nele. no estreito. sempre.
mas nunca encontre o outro lado
o civilizado. o outro. o de mim mesma.
e da experiência.
entenda só. o agora.
o ter que viver com você
e o invivível. da história.]
cuspa o fogo antes de lambê-lo sobre o bando brando. 
o em torno. entorne. o caldo. o quente. o calor.
habite as grelhas e desenhe só os fornos.
não entregue nenhum corpo que não o meu para salvar a tua obra.
entenda de novo o mesmo sacrifício tropical. 
porque a verdade dura.
e já se sabe que a vida é sempre a morte de alguém.
a tua violência. entenda antonin.
não é porque dela padeço.
volto à você 
para devolver a frase. o inaudível.
ouça
como já sabemos. 
que a tua vida ainda seria e sempre a morte
sou só alguém.
volto. revolto. revoluto.
para que fique ali daquele lado civilizado do mundo enterrado.
enquanto tento. mesmo em escombros
sobreviver. sem você.

Comentários

  1. Querida, AK, o blogger ta lindo: leve, arejado, intenso. Uma resistência, sem dúvida!

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    1. Este comentário foi removido pelo autor.

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    2. Obrigada Nilson. A leitura de vocês me incentiva e alegra. Agora foi, rsrs

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  2. Estou absolutamente encantado, professora. Visceralidade e um resistência singular. Um alento em meio ao caos.

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